quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LIDO POR AÍ. Matias Spektor e o jornalismo investigativo

matias spektor
É doutor pela Universidade de Oxford e ensina relações internacionais na FGV. Escreve às quintas na Folha de SP

Jornalismo investigativo é pilar da democracia e precisa de cuidados


O jornalismo praticado na grande imprensa foi um dos pilares fundamentais do experimento democrático desses últimos 30 anos. Da queda de Collor à de Dilma, o jornalismo investigativo brasileiro definiu os rumos da Nova República.
Nos próximos anos, porém, não há garantia de que a elite responsável por jornais, revistas, programas de rádio e telejornais consiga cumprir sua função social, qual seja a de informar o público, denunciar maracutaias, expor a desfaçatez de quem ocupa o poder e elevar a qualidade de nossa conversa coletiva.
O motivo disso é a transformação tecnológica que afeta a grande imprensa no mundo inteiro. A tiragem de jornais e revistas encontra-se em declínio ou estancada, devido à força da internet e à mudança de hábitos de leitura.
O fato é que a estrutura de uma boa reportagem — a identificação de fontes, a apuração de uma história, as viagens de entrevistas, a checagem e a edição do material — é lenta na era de Facebook, Twitter e Snapchat. No Brasil, com raras exceções, a reação a essas mudanças tem sido o empobrecimento do trabalho jornalístico.
Parece haver uma tendência a copiar os sites de entretenimento. Assim, as reportagens ficaram menores e a pressão por publicar qualquer coisa em tempo real afrouxou critérios de edição.
Para cortar custos, reduziram-se as grandes redações, que perderam alguns de seus talentos mais experientes. Cortou-se também o custo com revisores gramaticais, como se vê ao abrir as páginas de qualquer jornal nacional do país.
A faca também passou pelos correspondentes internacionais. Os jornais brasileiros já tiveram gente a soldo fixo em cidades como Pequim, Moscou, Jerusalém, Teerã, Caracas e Cidade do México, além das mais óbvias, como Buenos Aires, Washington, Nova York, Londres e Paris. Hoje, sobrou uma fração do mundo, ainda que haja freelancers escrevendo reportagens pontuais.
O resultado é a prática pela qual o leitor brasileiro termina lendo reportagens traduzidas de algum grande jornal internacional, com alguns dias de atraso e sem ter tido acesso ao contexto editorial do original.
Não precisava ser assim. Há jornais no exterior que enfrentam o desafio tecnológico redobrando sua aposta em jornalismo investigativo de fôlego. Entendeu-se que, numa democracia vibrante, nada vale mais do que a credibilidade de um bom jornal. É para lá que o público se encaminha quando a política e a economia atravessam turbulências.
Quiçá seja hora de pensar de novo qual o tipo de adaptação que o jornalismo brasileiro tem de fazer para cumprir sua função num mundo que opera online. 

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