A Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, será cenário, no dia 21 de agosto, das gravações de A Paladina da Ilha do Nevoeiro: A Fantástica Vida de Emília Freitas, longa-metragem dirigido e roteirizado pelo cineasta Márcio Câmara. A autorização para filmagens no interior da instituição é rara, e a escolha do espaço está diretamente ligada à história investigada pelo documentário.
Texto de Eduardo Bucholz
Quem foi a mulher cearense que, em 1899, imaginou uma sociedade secreta liderada por mulheres, escreveu uma obra sem paralelo em seu tempo e acabou praticamente apagada da história literária do País, sem deixar sequer uma fotografia ou retrato conhecido? Essa pergunta está no centro de A Paladina da Ilha do Nevoeiro: A Fantástica Vida de Emília Freitas, longa-metragem dirigido e roteirizado pelo cineasta Márcio Câmara e produzido pela Euphemia Produções.
Atualmente em fase de produção, o filme articula documentário, ficção e animação para reconstruir a trajetória de Emília Freitas (1855-1908), escritora, professora, oradora, abolicionista e libertária que viveu entre Ceará e Amazônia e deixou uma produção marcada por temas que permanecem atuais, como a condição das mulheres, a desigualdade, a liberdade e as relações de poder.
A ausência de registros iconográficos de Emília, longe de ser apenas uma dificuldade para o filme, tornou-se parte da própria narrativa. Sem uma imagem comprovadamente atribuída à escritora, a produção recorre a documentos históricos, arquivos, leituras críticas, encenações e elementos do universo criado por ela para investigar quem foi essa mulher.
O filme estabelece ainda paralelos entre Emília e a personagem central de A Rainha do gnoto, líder de uma sociedade feminina secreta instalada na misteriosa Ilha do Nevoeiro. No romance, as mulheres exercem diferentes profissões, dominam conhecimentos científicos e tecnológicos e percorrem o País em missões destinadas a enfrentar injustiças e proteger pessoas vulneráveis.
O fime estabelece ainda paralelos entre Emília e a personagem central de A Rainha do Ignoto, líder de uma sociedade feminina secreta instalada na misteriosa Ilha do Nevoeiro.
No romance, as mulheres exercem diferentes profissões, dominam conhecimentos
científicos e tecnológicos e percorrem o País em missões destinadas a enfrentar injustiças e
proteger pessoas vulneráveis.
Assim, a busca pelo rosto perdido de Emília se transforma em uma investigação sobre
como uma autora com produção tão singular pôde permanecer por décadas à
margem da memória cultural brasileira.
Uma cearense à frente de seu tempo
Emília Freitas nasceu em 11 de janeiro de 1855, em Jaguaruana, então distrito de
Aracati. Após a morte do pai, em 1869, mudou-se com a família para Fortaleza. Na capital
cearense, deu continuidade aos estudos, dedicando-se, entre outras áreas, à Geografia e
às línguas inglesa e francesa, além de estudar na Escola Normal do Ceará.
Aos 18 anos, já participava da vida intelectual fortalezense. A partir de 1873, passou a
colaborar com jornais e periódicos, publicando poemas, artigos e textos em prosa em uma
época na qual a presença feminina no espaço público e no ambiente literário ainda
enfrentava fortes restrições.
Sua atuação ultrapassava a literatura. Emília esteve ligada ao movimento abolicionista e
discutiu em seus textos questões como escravidão, educação, espiritismo e a
posição social das mulheres. Diferentemente de muitas escritoras de sua época, assinava
os próprios trabalhos com seu nome.
Em 1891, publicou Canções do Lar, coletânea de poesias. O livro que marcaria de forma
mais profunda sua trajetória, entretanto, chegaria oito anos depois.
Publicado em Fortaleza, em 1899, A Rainha do Ignoto rompeu com convenções literárias
de seu período ao combinar elementos do romantismo, do gótico, do fantástico e do
maravilhoso. No centro da história está uma sociedade comandada por mulheres, com
personagens femininas ocupando posições de liderança e exercendo atividades que, no
mundo real do século XIX, eram quase sempre reservadas aos homens.
A produção de Emília destoava tanto das expectativas impostas às escritoras quanto das
tendências dominantes na literatura brasileira. Seu romance acabou ficando esquecido por
aproximadamente oito décadas, até ser recuperado em nova edição em 1980. Desde
então, A Rainha do Ignoto passou a receber novos estudos e leituras acadêmicas, sendo
reconhecido como uma obra pioneira da literatura fantástica brasileira e apontado também
como precursor da ficção científica produzida no País.
Emília viveu ainda em Belém e Manaus e esteve envolvida na publicação de Luz e Fé,
primeiro jornal espírita do Ceará. Morreu em Manaus, em 1908. Mais de um século
depois, parte de sua história continua envolvida em lacunas: não existe fotografia
comprovadamente identificada como sendo da escritora e até mesmo uma de suas obras, O
Renegado, permanece sem exemplar conhecido.
É justamente nesse espaço entre aquilo que os documentos revelam e aquilo que o tempo
apagou que A Paladina da Ilha do Nevoeiro constrói sua narrativa.
Dez anos entre o livro e o cinema
A história do filme começou há cerca de dez anos, quando Márcio Câmara ouviu de um
amigo, pela primeira vez, o nome de Emília Freitas e de A Rainha do Ignoto. O
desconhecimento sobre a escritora despertou a curiosidade do cineasta, especialmente
diante de três elementos: a originalidade do romance, o longo período em que a obra
permaneceu esquecida e a inexistência de registros visuais conhecidos da autora.
Depois de ler o livro, Câmara identificou uma combinação de referências pouco comum na
literatura brasileira do final do século XIX, reunindo romantismo, literatura gótica e
fantástico-maravilhoso. A obra também chamou sua atenção pelo diálogo possível com a
literatura especulativa produzida na Europa naquele período.
A partir dessa descoberta começou um percurso de pesquisa e desenvolvimento que
desembocaria em A Paladina da Ilha do Nevoeiro. Em vez de optar por uma biografia
convencional, o diretor decidiu reunir linguagens diferentes para aproximar a personagem
histórica do universo que ela própria havia criado.
O projeto cinematográfico transforma, assim, a história do livro também em uma
investigação sobre sua autora. Vida e ficção se encontram enquanto a figura de Emília
dialoga com a própria Rainha do Ignoto e sua ilha invisível.
A trajetória de Márcio Câmara
Diretor, roteirista e produtor do longa, Márcio Câmara é graduado em Cinema pela San
Francisco State University, nos Estados Unidos, mestre em Cinema e Audiovisual
pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Comunicação pela
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Em 1996, fundou a Euphemia Produções, produtora pela qual realizou cerca de 20 filmes
em diferentes formatos. Entre seus trabalhos estão Identidades em Trânsito, Joaquim
Bralhador, Do Outro Lado do Atlântico, Quitéria e Rua da Escadinha 162. Este último
recebeu, em 2004, o prêmio de Melhor Documentário Brasileiro da Academia Brasileira
de Cinema.
Câmara também construiu uma extensa carreira como técnico de som direto. São mais de
150 filmes, incluindo produções como A Ostra e o Vento, Lavoura Arcaica, Deus é
Brasileiro, Pacarrete e Terruá Pará. Ao longo da trajetória, recebeu cinco indicações aos
prêmios de Melhor Som Direto da Associação Brasileira de Cinematografia (ABC) e da
Academia Brasileira de Cinema.
Essa experiência em diferentes áreas da realização audiovisual converge agora para o
projeto sobre Emília Freitas, cuja pesquisa acompanhou o diretor por uma década.
Da invisibilidade para as telas
Com 90 minutos de duração, A Paladina da Ilha do Nevoeiro pretende transformar a
ausência de uma imagem de Emília Freitas em ponto de partida para falar também sobre
memória, literatura e o lugar destinado às mulheres na história cultural brasileira.
O filme conta com Elisa Porto, Alcilene Cavalcante, Sara Diva, Samya de Lavor, Heloísa
Vasconcelos e Carla Castro. A direção e o roteiro são de Márcio Câmara, com produção
de Fábio Vasconcelos, fotografia de Beto Martins, direção de arte de Eduardo Aparício,
figurino de Dami Cruz, maquiagem de Bel Reis e montagem de Erê Morais Teixeira.
O projeto foi reconhecido como Melhor Projeto de Produção e Finalização de
Documentários no Edital de Apoio ao Audiovisual Cearense da Lei Paulo Gustavo, da
Secretaria da Cultura do Ceará, e também foi aprovado para captação de recursos pelo
Mecenas do Ceará.
Mais de 125 anos depois da publicação de A Rainha do Ignoto, o cinema volta à pergunta
que atravessa a história de Emília: quem foi a mulher capaz de imaginar, no Ceará do
século XIX, um território onde as mulheres comandavam o próprio destino?
A Paladina da Ilha do Nevoeiro parte desse mistério não para inventar um rosto para a
escritora, mas para recuperar aquilo que permaneceu registrado em suas palavras, ideias e
personagens.
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Assessoria de Imprensa
Eduardo Buchholz
Telefone/WhatsApp: (85) 99173-0418
E-mail: edubuchholz@uol.com.br
Euphemia Produções
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