Já imaginou lançar um livro e ter como "garoto propaganda" um escritor famoso e que já partiu "deste prum mundo melhor" há quase 140 anos? O livro é "Fortaleza prometida do Sol". O autor, o conhecido "enfant terrible" de outros tempos, Ricardo Kelmer.
Num jogada de marketing, Kelmer diz que uma pessoa teria psicografado uma mensagem do seu conterrâneo famoso José de Alencar, com elogios a obra de Ricardo, num luxo de dar inveja a quem lança um produto e não teve a ideia de usar tática tão surrealista.
A MENSAGEM DE ALENCAR
E A RESPOSTA DE KELMER
Caros patrícios e confrades da lida intelectual, salve! Conto-vos que, do Éden onde repouso entre sombras e harmonias celestes, eis que me chega ao conhecimento o tomo “Fortaleza prometida do Sol”, lavrado pela pena de meu digníssimo conterrâneo Ricardo Kelmer.
É sumamente consolador constatar que, passados cento e cinquenta anos desde minha partida, a proverbial teimosia do escriba brasileiro segue firme. Apesar das infindáveis agruras, da escassez de patacões e das ingratidões da fortuna que assiduamente perseguem a nobre carreira das letras, há sempre almas desvairadas que insistem em escrever e publicar. Sublime insensatez, louvada seja.É-me forçoso admitir que o estilo do autor, por vezes deveras libertino e desassombrado para os pudores do meu tempo, não deixou de me sobressaltar o espírito. Todavia, superado o inicial espanto, deleitei-me ao ver a amada terra natal retratada em toda sua desconcertante modernidade, pontilhada de desusadas belezas, prodigiosa diversidade e agudas contradições. Suas páginas me arrancaram francos sorrisos e, decerto, inquietas meditações sobre os descaminhos e grandezas daquela gente.E detenhamo-nos sobre a graciosa criatura que estampa a capa da obra. Vede-lhe a fisionomia: exibe a altivez e a graça singular que sintetizam de modo admirável a mestiçagem, tão cara à alma do povo cearense. Naquele semblante de curvas harmoniosas, onde o sol parece beijar a tez morena e os olhos cintilam com o fulgor do mar tropical, reconheço uma viva reencarnação estética daquela mesma virgem dos bosques que outrora cantei em prosa poética. É a nossa Iracema, transfigurada pelos séculos, noiva do Sol moderna e audaciosa, pronta a desafiar as brisas do Atlântico e a eternidade dos tempos! Agradeço, lisonjeado, a distinção, caro Kelmer.Insto-vos, pois, a todos os presentes nesta santa sessão: lede este livro, e não vos demorei em adquiri-lo. Afinal, o prezado autor necessita quitar suas contas terrenas ainda em vida, pois, como bem sabe este vosso espírito que já provou de ambos os estados, vender livros depois de morto - por mais postumamente célebres que venhamos a ser - nunca foi bom negócio para pagar o pão de cada dia. (José Martiniano de Alencar)
RESPOSTA DO AUTOR
Apesar da minha descrença sobre esses babados do pós-morte, guardarei com carinho a mensagem do espírito que se diz José de Alencar. Quanto ao estilo do texto, deixo pros estudiosos opinarem se a voz autoral é, de fato, a voz alencarina. De todo modo, gostei de não ver na mensagem termos como “atravessar”, que virou modinha irritante nas atuais resenhas literárias - tomara não se propague pelos lados de lá.
Adorei que o Alencar do Além reconheceu na capa a inspiração de sua Iracema. Mas não terá percebido no título a referência a Paula Ney, seu contemporâneo que celebrou Fortaleza nos versos “a loura desposada do sol”? Ou percebeu, mas não quis dividir a honraria com o colega?
Hummm, talvez eu esteja sendo indelicado, né? Um espírito famoso se dignou a interromper seu celestial repouso pra comentar meu livro, mostrando-se até solidário com minhas agruras financeiras, e eu aqui a fomentar intrigas entre os mortos, que coisa feia.
Pra me redimir da deselegância, encerro pedindo: leiamos José de Alencar, pai da literatura brasileira. Mas leiamos também os vivos, pois pra esses as contas estão pela hora da morte. (Ricardo Kelmer)

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