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08 março 2026

ARTIGO. Raissa Veloso analisa nova obra de Flávio Paiva

Reportagem
Raíssa Veloso



 A conexão dialógica com o continente africano proposta por Flávio Paiva em seu livro “Ceará Negro e outros temas de África” ganha novo reforço com a gravação da música-tema “Ceará Negro” (Paulo Lepetit / Flávio Paiva) pela cantora Fattú Djakité, da Guiné-Bissau.

Com a potente e dançante interpretação de Fattú, a nova versão de “Ceará Negro” já está disponibilizada no Spotify e demais plataformas de streaming de música. E tem novidade na letra: a cantora deu um toque especial à composição com a tradução para o crioulo da seguinte estrofe:
E se chover (Si tchuba bem)
Deixa a chuva molhar (Dexa tchuba modja)
E se ventar (Si bentu bem)
Deixa o cabelo assanhar (Dexa kabelo spadja).
A capa da nova edição ampliada traz uma nova foto de Yuri Chimanga, estudante da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), também autor da foto do primeiro “Ceará Negro”, lançado em 2025. O tema da imagem é o mesmo, um xequerê (abê ou também agbê), instrumento de percussão de origem africana, confeccionado com cabaça seca e envolvido por malha de contas coloridas, muito utilizado na música afrobrasileira.

Fattú Djakité explodiu no cenário internacional no ano passado (2025) com a música “Badja Tina” (em português, “Dançar Tina”), que fala do casamento forçado ainda existente em muitos países africanos. Ela tem feito turnês por Portugal, Espanha, Luxemburgo e Bélgica, e em março fará o circuito dos Estados Unidos.
Em dezembro passado Fattú recebeu o troféu “Best Inspirational Woman of the Year” (Mulher mais inspiradora do ano, em tradução livre) no Zikomo Awards 2025, um disputadíssimo prêmio do continente africano e das ilhas caribenhas, certame que, além da música, destaca também por voto popular online artistas de cinema e da moda.
A conquista desse prêmio representa um importante reconhecimento ao talento, à voz marcante e à autenticidade artística de Fattú, que com “Badja Tina” consolidou o seu lugar entre as grandes vozes femininas da música africana contemporânea.
A força arrebatadora da sua interpretação atiça a música “Ceará Negro” em uma fusão de funaná lento com samba-reggae. Ou seja: a congregação de passos de dança original caboverdiana com a percussão dos blocos afrobrasileiros em toque jamaicano.
Na opinião do autor, essa presença da cantora guineense em um projeto brasileiro está dentro da crença na importância dos vínculos artísticos e literários de África (no continente e na diáspora) que contribuem para a intensificação da necessária e urgente teia do antirracismo.
Esse conceito de liga cultural é destacado pelo historiador Rosenverck Estrela Santos, professor da Licenciatura e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos e Afro-brasileiros, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no prefácio à segunda edição, quando ele afirma que o “Ceará Negro e outros temas de África” é, sobretudo, “um livro sobre conexões”.
CONEXÃO AFRICANA
Flávio Paiva conheceu o trabalho de Fattú Djakité em 2025, ao receber do DJ Andy Khamidi, caboverdiano radicado no Ceará, o link para escutar a música “Badja Tina”. “Fiquei maravilhado com ela! Uma artista completa e magnética! Entrei em contato, expliquei a ideia de conexão do ‘Ceará Negro’ e ela generosamente aceitou fazer a gravação da música-tema da segunda edição do livro. É importante dizer que falei com a Fattú antes de ela ser premiada no Zikomo Awards 2025. A música está linda e eu estou muito contente com tudo isso”, celebra o autor.
A gravação de “Ceará Negro” foi feita em Cabo Verde com produção e direção do músico caboverdiano Dieg, marido de Fattú. Antes dela, outras duas cantoras de países do continente africano gravaram músicas de Flávio Paiva:
Em 2014, a cantora Fanta Konatê, da Guiné Cronacri, fez parceria com o autor e com o músico André Magalhães na letra da música “Dança de Negros – Batuque”, composta em 1887 por Alberto Nepomuceno (1864 – 1920), peça sinfônica repaginada que ela interpretou juntamente com a banda Dona Zefinha para o livro “Invocado – um jeito brasileiro de ser musical” (Armazém da Cultura), de Flávio Paiva.
Em 2024, a cantora Lenna Bahule, de Moçambique, gravou o single “Escarlate”, combinando sonoridades e pegadas rítmicas brasileiras e moçambicanas. A composição de Flávio Paiva conta a história de um belo e valente boi preto, de alma livre, que, apesar de desterrado, se joga com sua cultura e fé na construção de um novo lugar para viver, abraçando o território que passa a habitar. Esta música foi gravada originalmente em 1994 na voz de Edmar Gonçalves como uma das doze faixas do álbum “Rolimã” (Camerati, 1994).
TERRA DA LUZ
A ideia de “Festa na Terra da Luz” proposta na música “Ceará Negro” tem como força o resgate de uma expressão que pertence à luta e às conquistas pela abolição. A professora Adriana Guimarães, diretora-geral do Campus Fortaleza do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará (IFCE), que escreveu o posfácio do livro, chama a atenção para isso: “Flávio Paiva propõe um resgate do sentido da expressão ‘Terra da Luz’, cunhada pelo abolicionista José do Patrocínio (1854 – 1905) em decorrência da pioneira libertação, quando esse conceito tão potente e belo está reduzido à publicidade de venda de praias ensolaradas”.
No prefácio à nova edição do livro “Ceará Negro”, o professor Rosenverck Estrela Santos ressalta: “A chamada ‘Terra da Luz’, que aboliu oficialmente a escravidão em 1884, é apresentada em suas contradições e grandezas, a partir da atuação de personagens como Chico da Matilde, o Dragão do Mar, e das lutas coletivas que marcaram esse processo”.
O autor de “Ceará Negro” defende que essa expressão passe a ser referenciada com o propósito de exaltar não somente o feito abolicionista pioneiro de Acarape, no final do século XIX, mas a todas as lutas que ao longo do tempo vem dando curso às movimentações antirracistas e pela igualdade racial no território cearense.
“O sentimento de injustiça com relação às apropriações indevidas da expressão ‘Ceará Terra da Luz’ não tira dos afrocearenses a legitimidade de serem os beneficiários do alcance da simbologia contida nessa metáfora. Recuperar a posse desse bem intangível implica desenvolver novas relações entre percepção e reflexão, reconhecimento e respeito, em um reencontro com a História e com o senso de alteridade”, propõe.
Flávio Paiva argumenta ainda que “a grandeza simbólica da expressão ‘Terra da Luz’ merece assumir sua posição vinculada ao evento precursor da libertação brasileira e suas interseccionalidades com os campos da cultura, do turismo e das transformações sociais e políticas”.

RIvista do MINO nº 288, Edição Especial, Março2026

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