sábado, 1 de agosto de 2015

DEU NOS JORNAIS. A internet e o futuro dos sites noticiosos

ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

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A informação cada vez mais chega a mais pessoas; isso, porém, só aumenta o poder dos gigantes da internet
O fim dos sites de jornalismo: notícias consumidas aos estilhaços. Assim como alguns restaurantes que têm qualidade, mas vivem vazios por ficar fora de mão, os sites noticiosos vão se transformar em destino exclusivo para entusiastas.
Não que se pare de produzir notícias, longe disso. Só que elas, as notícias, deixariam de estar concentradas em determinados endereços na internet. Seriam produzidas a partir de estruturas centrais, mas distribuídas por redes sociais, aplicativos de compartilhamento etc. Para não ter de viajar até os longínquos "restaurantes", os usuários receberiam a notícia por "delivery".


Assim, o jornalismo on-line, como um todo, obedeceria à mesma lógica das agências de notícias atuais –fornecer conteúdo para fora de seu próprio ambiente.
Essas previsões, muito interessantes, são de um dos jornalistas mais influentes e bem-sucedidos da nova geração: o californiano (de pai brasileiro) Ezra Klein, 31, fundador do site noticioso "Vox". Bem, "noticioso" talvez não seja a melhor palavra, já que o "Vox" se dedica muito mais a análises e contextualização do que propriamente a notícias.
"Vox" não faz meu gênero. Acho o estilo muito esquemático, preto no branco, "good guys vs bad guys" etc. Mas o site é um sucesso estrondoso e, pelo menos, não vive de caçar cliques com listinhas fofas. Trabalha com jornalismo "tout court" (aliás, nada contra as listas, só acho que não são jornalismo).
Mas voltando às antevisões de Klein: elas estão em um texto publicado semana passada no próprio "Vox", intitulado "Será que a mídia está se tornando uma grande agência de notícias?" (http://is.gd/lrizRb).
Nas próprias palavras dele: "Meu palpite é que, em três anos, será normal para as empresas de notícias, mesmo as de escala mais modesta, publicarem em alguma combinação que inclua seu próprio site, um aplicativo móvel próprio, os 'instant articles' do Facebook, Apple News, Snapchat, RSS, Facebook Video, Twitter Video, YouTube, Flipboard e pelo menos mais uns dois 'players' importantes que ainda vão surgir."
Desculpe se o parágrafo anterior ficou muito técnico, mas, se você aguentou até aqui, o que Klein quer dizer é que cada vez menos gente digita o endereço de um site de notícias. Acompanha as atualidades, isso sim, por seus feeds de redes sociais e outros aplicativos. E não na forma de link, em que você clica e vai parar no site original.
As notícias estão abandonando seu habitat. Começam a migrar para dentro dos aplicativos.
Ezra Klein vê essa tendência com grande otimismo, e dá um exemplo do próprio "Vox": um vídeo explicando a crise grega teve, dentro do site, pouca audiência. Mas, ao ser publicado no Facebook, atingiu 4 milhões de visualizações, resultado excepcional para um tema tão árido.
Ele interpreta assim: quem vai ao Vox.com já é fissurado em notícias. Entende a crise grega e talvez não precise de um videozinho explicativo. Já quem trombou com o ele no Facebook pouco sabia de Grécia, mas acabou aprendendo com o vídeo cuja origem era o Vox.com.
Em tese, ótimo. Quem não quer que seus produtos cheguem a mais e mais pessoas? Ainda mais agora, quando o acesso à web passa cada vez mais para os celulares, com suas telas muito menores que as de um PC, e que realmente não exibem direito os sites de formato tradicional?
Mas, aqui, faço uma ressalva, ausente no texto de Klein: se as notícias vão ter de passar por essa "etapa extra" de distribuição, isso significa ainda mais poder aos vorazes monopolistas da web: Facebook, Google, Apple, Amazon, Twitter (este em menor escala).
O suposto "ethos" de liberdade total da internet se desvela em um modelo cada vez mais concentrador. Mesmo a decantada "economia dos aplicativos" é uma farsa –só um número infinitesimal desses 'apps' realmente faz sucesso.
E os poucos que se destacam são rapidamente comprados por algum gigante. Para ficar em exemplos famosos no Brasil: o Waze é do Google; o Instagram e o WhatsApp são do Facebook.
Dura conclusão: para chegar às massas on-line, só passando pelos gigantes do Vale do Silício. O horizonte parece radioso, mas as regras não estão com os produtores de conteúdo. Apesar de todo o otimismo de um jovem brilhante como Ezra Klein, acho esse panorama aterrador.

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