quarta-feira, 15 de abril de 2015

RÁDIO. Um cego comenta futebol em emissora paulista

Ele tem cegueira total, mas é comentarista esportivo de rádio paulista

Rafael Nardini
Do UOL, em São Paulo

 Ouvir texto

0:00
 Imprimir Comunicar erro
"O São Bernardo começou o jogo num ritmo muito forte até que num cruzamento acabou abrindo o placar. O segundo gol veio numa cobrança de falta que desviou na barreira e sobrou para o Hernan ampliar. Queria destacar as atuações do lateral-direito Rafael Cruz e do Cañete, também muito bem na partida". O radialista Felipe Augusto Diogo, 30, deficiente visual de nascença, precisa de atenção redobrada e ouvido atento à narração das partidas para fazer seus comentários. Para ele, intensidade e velocidade da voz do narrador que o acompanha na cabine de transmissão são indicativos fiéis do que se passa em campo:
"O rádio é descritivo. Ele cria um ambiente para você enxergar o jogo", diz. As palavras são usadas por ele para compreender o que se passa em campo. Não tem chute. Felipe analisa o que acontece no gramado a poucos metros dele. "O gol é tudo. Ele premia o mais eficiente. Porque nem sempre quem joga melhor, marca".
Na empreteitada pioneira, Felipe conta com o auxílio da equipe da rádio comunitária Paraty FM (87,5 FM ou http://www.radioparaty.com.br), de São Bernardo do Campo. Na equipe fixa da rádio desde 24 de junho de 2013, os parceiros de jornada são essenciais para o desenrolar dos comentários de Felipe. "Eles já dão a deixa, falam se a jogada aconteceu pela direita ou pela esquerda… Dão as indicações".
Acima de tudo, o trabalho é facilitado pelas características de Felipe, atento ouvinte e dotado de sensível capacidade para assimilar dados, guardar detalhes de jogadas, jogadores e os números da partida. Todos esses fatores, aliados ao apoio da torcida - o termômetro real das partidas -, são bons macetes para entender com precisão o que acontece ou pode acontecer durante a partida. No estádio, assegura o comentarista, tudo ganha mais vida. Nas vezes em que esteve na Vila Belmiro para acompanhar o Santos, seu time de coração, não era nada difícil saber quando a bola chegava aos pés de Neymar. "O aplauso é sempre maior, a ansiedade da torcida é maior".
Antes da Paraty, Felipe foi colaborador da rádio Nove de Julho (antigo 1600 AM) por oito anos. Nesse período, quem auxiliava o estudante do Instituto de Cegos Padre Chico era o jornalista Edson Natale. Mais ou menos nessa ocasião Felipe visitou as instalações das emissoras Globo, Trianon e Record. Em 2005, fez questão de ir ao encontro de Fiori Gigliotti quando o narrador recebeu o título de cidadão da cidade, na Câmera dos Vereadores de Diadema, também no ABC. O comentarista não assume diretamente, mas a paixão pelo rádio parece ser uma herança do pai, o metalúrgico Josué Diogo, 61. "Quando ele me acordava para ir à escola, acabava ouvindo O Pulo do Gato, do José Paulo de Andrade".
Além de Gigliotti, completam o "dream team" radiofônico de Felipe, os narradores Éder Luiz, Osvaldo Maciel, Ulisses Costa, José Silvério e Oscar Ulisses. Esse último, Felipe fez questão de entrevistar para o "Espaço da Inclusão", programa que ele toca sozinho, no maior estilo "bate-escanteio-e-corre-para-cabecear". Focado nas dificuldades, mas também nas soluções práticas para os deficientes, o programa vai ao ar aos sábados, das 13h às 14h. Oscar Ulisses foi um dos que já conversaram com Felipe ao vivo.
A conversa foi sobre a longa trajetória de Ulisses ao lado do amigo Osmar Santos, outro ícone do radiojornalismo. Impossibilitado de enxergar desde o nascimento, Felipe guardou um espaço especial para jornalistas com limitações ou deficiências: Jean Schutz (WM Digital, de Santa Catarina), Henrique Xavier (Banda B, do Paraná) e Marco Aurélio de Carvalho (EBC). Dudu Braga, produtor musical e radialista filho do cantor Roberto Carlos também são citados com admiração.
Quando interpelado, Felipe tem a mania de mexer os joelhos e balançar as pernas insistentemente. Por vezes, as mãos acabam entrando nesse ritmo também. Quando está no ar, seja no acanhado estúdio ou na cabine do estádio Primeiro de Maio, a postura se altera. Durante a entrevista, fala rápido, engolindo algumas palavras. Ao comentar, emposta a voz, dá ritmo às sílabas.
Gilberta Diogo, 61, é quem acompanha o filho nas andanças até a rádio quase todos os dias. Felipe costuma chegar às 17h40, vinte minutos antes de precisar estar sentado em frente ao microfone para o programa diário de segunda à sexta. Padarias, pizzarias e restaurantes modestos - todos dispostos num raio imaginário de 1 km da sede da rádio - e até o Sindserv, o Sindicato dos Servidores Públicos, são os anunciantes da rádio. Todos, é preciso fazer justiça, citados inúmeras vezes com apreço pelo narrador Rhenan Moreira durante o confronto entre Bernô e MAC.
Ainda que também seja verdade que Antonio Eustáquio, comentarista e faz tudo da rádio, pedisse dedicação maior para um ou outro merchan. "A gente tem cobrado o Felipe para ele se estender nos comentários. Na rádio você precisa falar mais, explicar melhor, dar mais detalhes. Na televisão é que os comentários são mais rápidos", conta Rhenan, durante o intervalo da partida. As considerações parecem ter surtido efeito. "Saiu o Cañete, muito aplaudido pela torcida. Agora vem o jovem Paulo Marcelo que fez uma bela Copa São Paulo neste ano. Vamos ver o que ele consegue fazer nesses minutos finais de jogo", comenta Felipe. Dito e feito. No primeiro toque na bola, o garoto daria números finais ao jogo.
"Você precisa falar sobre o sorriso do Felipe. Ele tem uma alegria…. Às vezes ele começa a rir e a gente entra na dele e ninguém para", aconselhou a cometarista Natália Santana, a voz feminina das transmissões esportivas da Paraty. Natália, também comentarista durante os jogos, é estudante do terceiro ano de jornalismo na mesma Universidade Metodista de São Paulo em que Felipe se graduara quatro atrás.
Para concluir o curso, Felipe criou um livro-reportagem em braile sobre capoeira e a inclusão de deficientes no esporte. Mas antes de conseguir o diploma com nota 9 dos 10 possíveis, Felipe tentou cursar Rádio & TV. Entrou no faculdade influenciado pela paixão pelas comunicações via ondas sonoras. Descobriria com duas ou três semanas que o curso poderia se chamar "TV & Rádio". Ainda que houvesse cooperação dos demais alunos, travou os miolos quando um professor pediu que realizasse um trabalho sobre estética.
"Como uma pessoa que nunca enxergou vai falar sobre isso?", brinca Felipe. Além de desbravar o rádio como comentarista, ele também tem coragem o suficiente para praticar atletismo de rua. Os treinos acontecem quase que diariamente, sempre acompanhados por um guia. O apoio financeiro vem da Fundação Cásper Líbero.
Pouco antes das 21h e de dar início à transmissão ao vivo daquela noite de 8 de abril, Álvaro Gomes, o plantonista durante as partidas do Bernô, resume bem toda a conversa numa frase. Enquanto mata tempo acompanhado pelo comerciante Eugênio Ribeiro do Nascimento, o Cigano, o amigo do comentarista define: "Conhecer o Felipe muda a vida de uma pessoa".

Os comentários de Felipe Diogo (São Bernardo 4 x 0 Marília)
Abertura da transmissão - O Marília vem a campo num 4-3-3 e tentando uma saída de maneira honrosa do Campeonato Paulista. Já o São Bernardo vem num 4-5-1 e empolgado depois da boa atuação na última rodada.
7' do 1º Tempo - O São Bernardo já vinha melhor. Esse é o gol do Luciano, um zagueiro que vem muito bem no Campeonato.
31'do 1º Tempo  - O Marília até chegou a tentar pressionar, mas quando sai, se expõe ao contra-ataque. Por isso, o São Bernardo segue melhor.
Intervalo - O São Bernardo começou o jogo num ritmo muito forte, até que num cruzamento acabou abrindo o placar. O segundo gol veio numa cobrança de falta que desviou na barreira e sobrou para o Hernan ampliar. Queria destacar as atuações do lateral-direito Rafael Cruz e do Cañete, também muito bem na partida. Até aqui, foram oito escanteios para o São Bernardo.
7' do 2º Tempo - 3 x 0. Depois um lance bonito do Magal, o meia Cañete, novamente num bom jogo, marcou. Belo gol do argentino Marcelo Cañete.
22' do 2º Tempo - O lateral Eduardo se movimentou bem pela esquerda. Agora entra o Vanger para fazer companhia ao Hernan no centro do ataque.
29' do 2º Tempo - Pelo o andamento do jogo poderia ter um placar até melhor para o São Bernardo. O Hernan teve algumas chances mais claras de gol, que acabou disperdiçando. Mas vale destacar um jogador. Que bela partida está fazendo o Magal, hein, Renan?
37' do 2º Tempo - "Saiu o Cañete, muito aplaudido pela torcida. Agora vem o jovem Paulo Marcelo que fez uma bela Copa São Paulo neste ano. Vamos ver o que ele consegue fazer nesses minutos finais de jogo".

Um comentário:

BLOG COREAUSIARÁ disse...

Lembra do Paulo Rodrigues, da Verdinha, que morava no Zé Walter?