terça-feira, 25 de outubro de 2011

ARTIGO. Um texto meu resgatado na web


A OUTRA FACE DO CRISTO
DA CEIA LARGA DE DA VINCI
Nonato Albuquerque

Nunca tive aptidões para a pintura, mas já fui retratado pelas mãos de um grande mestre. Quem me vê assim maltrapilho, miserável, jogado pelas ruas como um trapo, nem imagina que, um dia, eu já fui modelo de um famoso pintor: Leonardo da Vinci. E meu rosto, acreditem, ficou impresso num de seus trabalhos mais inesquecíveis, a Santa Ceia. Aliás, por duas vezes ele me retratou nessa mesma tela.

Eu morava em Milão, por essa época. Jovem, bem afeiçoado, levava uma existência tranquila. De família abastada, tinha recursos e, por onde eu passava, era alvo de cortesias e olhares das donzelas, chegando a arrancar a ira dos mancebos que me invejavam o porte. Estive prometido a uma das mais bonitas mulheres da cidade. Era, porém, a semelhança física com a figura do Nazareno, o traço mais marcante de minha pessoa.

Certa feita, quando estava em minhas noitadas junto a amigos que o meu dinheiro e minha fama atraíam, achegou-se a mim um pintor florentino de nascimento e de nome já bastante íntimo à escola de arte difundida por seu mecenas, Lorenzo de Médici. Convidou-me para que eu fosse modelo de um novo projeto seu. Uma tela que ia registrar o último encontro de Jesus com os seus discípulos antes da tragédia na cruz. O convite me deixou sa-tisfeito, afinal era o mestre de Nazaré um dos ícones mais respeitados da virtuosa fé católica, a qual eu professava junto com minha família. E, depo-is, eu tiraria partido da minha semelhança com o filho de Deus.

Durante algum tempo da segunda metade do século XV, eu trabalhei pa-ra Da Vinci. Nessas ocasiões, ele conversava muito, indo dos temas mais banais aos assuntos mais profundos. Uma vez, chegou a contar-me algo surpreendente. Havia mais do que o simples interesse em retratar uma pas-sagem bíblica com aquele quadro.

Da Vinci – e quebro agora um pacto de silêncio de muitos séculos – desenvolveu com a “Última Santa Ceia”, um precioso ensaio sobre Astrologia, mercê de seus estudos de ocultismo junto a outras ciências que ele tão bem conhecia. O quadro, em verdade, representa uma leitura do cos-mos e os doze signos do Zodíaco e as relações psicossociais de cada indivíduo que nasce sob as mais diversas conjunções. Os onze homens que estão em torno do mestre atendiam, também observou o artista, a um preceito antigo da seita dos nazarenos, cujos rituais ocorriam nos cenáculos, principalmente ao aproximar-se a festa do Pessach.

Depois, quando da Vinci já havia dispensado os meus préstimos, eu me retirei de sua vida e a minha, inexplicavelmente, passou por um redemoi-nho de acontecimentos. Por uma grande paixão não correspondida, eu aca-baria estabelecendo uma mudança radical. A mulher que me fora prometi-da em núpcias, simplesmente me deixou – cansada, segundo ela, de minhas muitas traições – e fugiu com um outro. O peso do mundo desabou sobre minha cabeça. Entrei em parafuso e, literalmente, enlouquecí.

Larguei a casa dos pais, passei a viver nas tavernas, constantemente em-briagado. Perdí as noções do tempo, do respeito e da dignidade, a ponto de chegar a mendigar nas ruas para minha própria sobrevivência. Minha famí-lia fez de tudo na tentativa para eu me recuperar; mas foi em vão.

Uma noite, quando eu dormia junto a outros mendigos no átrio da catedral de Milão, fui acordado por um companheiro. Dizia-me estar ali uma pessoa bem aparentada, à procura de alguém para um trabalho que ele esta-va a realizar. E eu tinha sido a pessoa escolhida.

Quando abrí melhor os olhos e me deparei diante daquele homem de cabelos compridos e barba ainda mais longa, me assustei. Era o pintor famoso que me procurava. Mas ele não reconhecera naquele farrapo humano que eu me transformara, o seu antigo modelo de Cristo. Quando lhe revelei minha identidade, ele ficou perplexo. E ao tomar conhecimento de toda a tragédia, lamentou minha situação de penúria, mas mesmo assim me ofe-receu o emprego até mesmo como forma de me auxiliar na recuperação.

Evidente que eu não mudei, pois a desgraça já havia me tomado a pró-pria alma e nem o meu físico lembrava mais qualquer vestígio da meiga e doce figura do rabi da Galiléia, de outros tempos. Mesmo assim, Leonardo da Vinci precisava de mim para que eu lhe inspirasse com meu rosto preco-cemente envelhecido, a refletir todo a maldade que eu herdara do mundo. Mas, jamais, uma revelação me causaria tanto impacto quanto a da nova proposta do pintor.

Ele, agora, estava à procura de alguém com feições bastante carregadas de sofrimento e dor para figurar no projeto que ele ainda estava a executar. E entre todos os desgraçados da sorte que ele sondara por onde andou, nenhum chamara mais sua atenção do que minha triste e singular pessoa en-tregue à desgraça da bebida.

Aceitei o trabalho e, durante algum tempo, era eu, uma vez seguinte, o modelo através do qual o grande mestre do Renascimento compunha a sua fantástica visão da Ceia Larga, na qual desenvolveu todo o seu talento para revelar a contraditória face da individualidade humana e da capacidade de uma mesma pessoa viver o seu paraíso e o seu inferno numa única existên-cia na Terra.

Depois de ter sido o Cristo nessa obra majestosa, o destino me encami-nhara ao outro extremo. Da Vinci encontrara em mim o modelo completo para retratar o mais miserável de todos os seguidores do Mestre. E foi assim, que eu emprestei novamente o meu rosto para que ele desenhasse o perfil que imaginava ter tido o discípulo Judas Iscariotes, o que fora vítima da sua própria miséria humana.

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